sexta-feira, 1 de abril de 2011

LIÇÃO DE VIDA

Era quase meio-dia, quando abriu os olhos vendo tudo embaçado. Assim que sua visão se estabilizou, e sua mulher e filhos pararam de chorar, abraçando-o na cama da UTI, ele começou a recordar alguns nacos do acontecido na noite anterior. Um assaltante havia entrado em sua casa, e ele, sonolento atendendo ao pedido da mulher, foi averiguar o andar de baixo. Veloso se assustou com a presença do mau elemento na própria casa, e o ladrão, nada tarimbado, também no susto, disparou com o revólver calibre vinte e dois contra o dono da casa.

Assim que ele acordou e a notícia se espalhou aos amigos ávidos por informação, não tardou chegarem visitas. Veloso, com o semblante meio mudo, estava calado até então, e abriu a boca para resmungar: Hoje temos que torcer pra sermos assaltados por profissionais! É o fim dos tempos! Suspirou e indagou pelo bandido: E o bandido? Pegaram o bandido? Pegaram sim, Veloso. Parece que o cara foi encontrado hoje cedo num boteco, bêbado igual um gambá!

Veloso ficou perplexo com a resposta e se absteve do resto da conversa, que logo preencheu o quarto com inúmeras fofocas do filho de fulano que virou ladrão e assaltou fulana, que o carregou no colo; de sicrano que quase morreu quando foi assaltado por um pivete; que o governo não faz nada a respeito e outras histórias corriqueiras sobre a violência na cidade. Ficou enfadado da conversa e ligou a TV, mas em todos os canais só havia notícias de uma menina que fora jogada do sexto andar pelo pai. Isso já virou uma minissérie! É o fim venderem notícias com tal tragédia! E após exclamar consigo, sentiu-se entediado e adormeceu.

Veloso nem parecia ter passado por cirurgia para extirpar o projétil do corpo. O acontecimento foi considerada pelos médicos como um desses milagres que fazem qualquer ateu crer em Deus. A bala do vinte e dois, como foi disparada a queima-roupa, não atingiu sua velocidade final e assim, não teve força para fazer um grande estrago, ficando alojada um palmo acima do coração, no ombro esquerdo de Veloso.

Dia seguinte, o quarto de Veloso não tinha tantas visitas como quando acordara após o procedimento cirúrgico. E no finzinho da tarde daquele dia, Veloso pôde voltar para casa. O tom da conversa no caminho era de felicidade por ele estar bem, além das súplicas de sua esposa, dizendo que o marido estar vivo era uma dádiva divina, que ele deveria aproveitar mais a vida, que não podia ser tão carrancudo, pois vivia reclamando, que aquilo fazia mal et cetera. Em suma: queriam um Veloso mais bem humorado. Ele respondeu que ela tinha toda a razão e que tentaria mudar. Algo estranho, já que ele nunca concordava com as coisas, dificilmente dava o braço a torcer. Como não bastasse essa estranheza toda, ainda pediu ao filho, que dirigia, para
passar em um centro comercial. Disse a todos para aguardarem no carro, sob protestos deles, pois não queriam deixá-lo sozinho. Voltou após algum tempo com uma sacola. Foi questionado sobre o embrulho, entretanto, disse que era besteira, que depois mostrava, tratou de encostar a cabeça no vidro e dormiu, enquanto a família tornava a lhe aplicar sermões.

À noite, jantaram em família. Refletiram sobre como a vida pode levar alguém querido de uma hora para a outra, que o pai de família ali sentado poderia não estar mais entre eles. E aí foi um rio de lágrimas, até Veloso, avesso ao choro, deixou o pranto rolar, tamanha comoção.

Na hora de deitar, perguntou a esposa se poderia dormir sozinho no primeiro dia, o ferimento ainda doía e ele tinha medo que dormindo com ela, viesse a encostar o local ferido durante o sono, ao que foi prontamente atendido. De manhã, bem cedo, esposa e filhos tomavam o café-da-13manhã, e repentinamente, ouviram um estrondo na casa, semelhante a um tiro, e ecoou do andar de cima, para onde subiram correndo em desespero.

Quando abriram a porta do quarto de hóspedes para ver, lá estava o corpo de Veloso todo sujo de um rubro indescritível. A cabeça pingava e havia uma gosma espalhada por toda ela, além do travesseiro. Ele estava deitado de bruços, a mão direita embaixo do travesseiro, e junto a ela, um revólver calibre trinta e oito. Suicídio não parecia, pois a arma não estava presa a mão. Talvez ficara traumatizado com o assalto, resolveu comprar uma arma quando pediu para passarem no centro comercial, para dormir com ela em baixo do travesseiro, e, devido a sua imperícia, poderia ter esquecido de travá-la, logo após carregá-la. A cena dava asco, sua filha e esposa berravam, o filho chorava menos que elas, embora fosse o suficiente para molhar todo seu rosto. Passou em segundos na sua cabeça que seu pai havia escapado de uma morte fatal por arma de fogo e agora poderia ter se matado sem querer por dormir com uma embaixo do travesseiro. Uma grandessíssima ironia. Mesmo assim, o filho era o que tinha mais condições psicológicas no recinto. Foi ele quem se aproximou do pai – chorando e tremendo – e tocou lhe o corpo.

- TCHARAN!

O pai gritou abrindo o olho. A filha saiu correndo e gritando pelo corredor, a mãe desmaiou e a calça do filho jorrava. Veloso pulou da cama.

- Ué, gente, o que é isso? Vocês não queriam que eu tivesse bom humor? Então, é tudo mentirinha, ó! Primeiro de abril!

4 comentários:

Dita Panul disse...

Que nervoso,devorei até o fim e hahahahahahah, quase me mata do coração!!! Beijo.

Fernando Ramos disse...

Então me explique o que faltou pra matar, Dita. Aperfeiçôo na próxima vez. ;)

Dita Panul disse...

Malvado!

Raísa, disse...

Olha, ficou bastante legal. Vou passar a visitá-lo mais vezes. Abraço.

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