
“Começou semana passada, quando acordei com uma dor no estômago. Então nos dias seguintes, acordei do nada com fortes pancadas no fígado e nas costelas. Sem falar das fisgadas que sinto frequentemente, hematomas nas coxas. Tomei a decisão de procurar vocês quando acordei com o olho doendo.”
“Roxo, o senhor quer dizer. Seu olho está roxo.”
“É, isso. Não é normal. Algum problema eu devo ter, né, doutor. Vai que é alguma dessas coisas que vivem passando nos documentários de sextas e domingos da tevê, tipo sonambulismo, sei lá.”
“Tá bem, tá bem. O senhor fará uma polissonografia na nossa clínica do sono e...”
“Poli o quê?”
“Polissonografia. Um exame que avaliará seu sono com variáveis fisiológicas e registros, quantificando e qualificando seu sono.”
“Variáveis fisiológicas?”
“São sinais que... Ah, olha, esquece. O exame dirá que distúrbio do sono você tem, ok. Mas por suas descrições deve ser terror noturno ou sonambulismo mesmo."
“Ah.”
“Bom, vou passar algumas recomendações pra sua noite aqui na clínica.”
“Noite na clínica?”
“Claro. Como acha que se faz um exame desses? Acordado?”
“Doutor, conheço meu gado. E esse negócio de passar a noite na clínica vai parecer pilantragem minha. Então vou trazer minha esposa aqui, daí o senh...”
“Você é casado? Tsc, tsc, tsc. Você não havia mencionado isso.”
“Ih, doutor! Então é por isso esse papinho aranha aí de dormir na sua clínica? Tá me estranhando?”
“Não, imbe...querido. Você não havia dito que era casado – provavelmente porque uma das secretárias incompetentes não preencheram sua ficha direito por preguiça ou coisa assim. Mas sendo casado, obviamente, você e a senhora sua esposa, dormem juntos.”
“Minha mulher anda mau-humorada comigo e esses dias tenho dormido no sofá. Mas sim, dormimos juntos, como todo casal que se suporta.”
“Tá bem, tá bem. E consegue se lembrar qual foi o sonho que teve antes de nos procurar?”
“Taí, faz algum tempo que tenho sonhado eroticamente com a pele branca das coxas e o bumbum polpudo da Celina, um grande amor.“
“Pfff. Esquece a clínica. Toma aqui, procure um ortodentista."
“Ué, mas... ‘Placa de acrílico. Pôr na boca todos os dias antes de dormir.’ Que diabo de receituário é esse, doutor?”
“Este é um aparelho pra evitar o ronco. E que tornará incompreensível para sua esposa o que você fala enquanto dorme.”
*A foto foi encomendada produzida e cedida gentilmente pela fotógrafa @drikalandim. Acessem o site da fotógrafa. Recomendo: drikalandim.com.

10 comentários:
Ah então é por isso que o médico me receitou um desses...Mas primeiro eu tenho que deitar pra dormir, fica dificil quando a noite chega e tantos morcegos lá fora... Nós morcegos já nascemos pobres, porém já nascemos livres... o Chico Buarque vai se retar se ler isso, tá infame rsrs
Muito bom como tudo que vc escreve, te vejo sempre nas madrugadas lá verdinho no msn.
Beijo.
Vampira, especificamente nesta madrugada, só estava minha presença física,. Postei o conto entre sonos e cochilos. =)
Risos.
Me vi na cena. Não que eu já tenha presenciado. Mas, imaginei. Eu já bato por qlquer coisa imagina assim? kkkkkkkk
O humor ácido do doutor foi esplendido, "não imbe...querido", rs.
Não é real este conto é?
Bjs
ú&e <3
Sim, povo. Copiei a licença poética das aspas, ao invés dos travessões, do mestre Rubem Fonseca.
Haha, gostei do conto, ficou bom.
E o cara, safadinho, heim?
Hummm... isso explica muita coisa.
Simplesmente fantástico, meu caro!
Lila, não o conto não é real. Mas surgiu do comentário de um amigo casado, que disse ter medo de ver uma sicrana lá demais e acabar por falar enquanto dormia.
Acho que a placa de acrílico não será suficiente. Que tal uma armadura?
rs
beijo rouge
Dani
Já falei dormindo, mas ainda não me encrenquei... se bem que, por vezes, surgem roxos sem explicação em meu corpo... Será que, mesmo sem roncar, posso usar essa plaquinha?! ;)
Beijo, Fernando! Bom te ler de novo!
MeninaMisteriosa
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Ri alto! Imaginando isso na vida real então...
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