terça-feira, 31 de agosto de 2010

METENDO A COLHER

De bailarino a jogador de futebol, pela maneira que bradavam e gesticulavam mútua e exasperadamente, aquela discussão de relação acabaria se convertendo em uma manchete de jornal policial

A querela tomara uma proporção estratosférica, a ponto de nem mais lembrarem-se que a discussão começara porque discordavam de forma veemente acerca do futuro do filho. Que não tinham. E nem gravidez prevista.

- Ballet, o escambáu! Meu filho não será viado!
- Ah, então quem faz ballet é viado? Aquele jogador do São Paulo é macho que só, né.

Neste momento da discussão em que o sarcasmo imperava, a coisa estava tão feia que já alcançara o efeito dominó-russo: ele vermelho e falando cuspindo; ela irônica; ele roxo e perdendo o ar em seus argumentos; ela em olhar e voz blasé.

Com um cenário assim, é fácil entender porque em uma discussão entre pares não devemos pôr, sugerir, quiçá meter a colher – afinal, fosse quem fosse intervindo, levaria uns bons sopapos. Nessa hora, com o casal às vias da agressão física, passava por ali um hippie que, como todos, notou que as coisas não iam muito bem no interior do veículo do casal. “Essa vibe ruim tem nada a ver com o amor!”, pensou. E tomou uma atitude no intuito de pacificar as coisas, apaziguar os dois. Toc, toc, toc, bateu no vidro do carro. O rapaz, ainda em cólera e muito contrariado, abriu a janela ao hippie, que fez um gesto igual ao vê de vitória.

- Aí, paz e amor, gente. Olha só, guerra só gera mais guerra, make love, don’t make w...

Nunca encontraram o corpo do hippie.

*Foto: sem autor, busca no Google com a sintaxe "Briga de casal".

13 comentários:

Menina Misteriosa disse...

Bom mesmo é deixar o 'pau quebrar'! [veja bem, a colher era de pau]
Quem manda tentar ser bonzinho? risos...

Bom te ler de novo, por aqui.

Beijo

MeninaMisteriosa

disse...

Tomara que a morte tenha sido lenta e dolorida. rs

Beijo

Carla Ceres disse...

Comentar um conto desses é um ato de bravura. Talvez nunca encontrem meu corpo. :)

Nanda disse...

Fiquei até com um pouco de vergonha quando eu li porque eu já tentei muitas vezes apaziguar ânimos de casais apaixonados... sorte que eram pacientes e nada aconteceu comigo, rs

Mas o melhor do amor ainda continua sendo a reconciliação, que quase sempre tem um desfecho intenso.

Beijos Fer!

Cassiana disse...

casal que não briga não é casal né! e sempre perde quem se mete
beijo!!

Maria disse...

eu só ia virar pro carinha e dizer assim: se nascer menina, manda pro judô. vai por mim.

sei bem como funciona coxia.

Rita Schultz disse...

Briga?! Ownnn...
Depois a gente fica tristemente procurando o outro!
Ah, tira essa colher daí!
Mas deixa a ironia!
Legal, Fernando.
Bjs.

Única e Exclusiva disse...

Tadinho do hippie, rs. Eu nem em briga de família me meto. Corro longe de confusão. Como diz no NE: --Vc's que são brancos que se entendam!

bjos, ú&e =**********

Felipe Carriço disse...

AHUHAUHA...

Genial!

Flah Queiroz disse...

Ah, parzinho... Estava com saudades de lê-lo!

Gostoso [de ler] como sempre, hahaha.

Vampira Dea disse...

Eu realmente não me meto,geralmente acabam na cama, mas se a coisa fica séria faço nada não só chamo a policia rsrsrs

Du disse...

Cara, a burrinha aqui nem sabia que tu tinha um blog tão legal bah, dá zero pra ela! =)Tava lendo por aqui, admirando... vou levar o link pra não esquecer de voltar, porque eu às vezes sou acometida pela doença do alemão aquela, sabe? Esqueci o nome... rsrsrs

Beijos querido!

Eliane F.C.Lima disse...

Meu jovem escritor,
Vi você lá no Twitter - estou começando a achar bom esse tal de twitter - e vim aqui ler. Muito bem. Os textos são fortes e, apesar de ficção, muito verdadeiros. Os diálogos, então...
Como dizia aquela máxima de não sei quem e que li não sei onde: "A vida imita a ficção." Se não li, inventei agora, o que dá no mesmo.
Eliane F.C.Lima (http://conto-gotas.blogspot.com)

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