terça-feira, 30 de junho de 2009

QUASE PERFEITA

- Pois é, Henrique, a Helena é linda, inteligente, esforçada, estudiosa e de boa família. Ah, por acaso, meus sogros me adoram! É também bem-humorada, de um riso frouxo que sempre me coloca pra cima. Tem uns ensinamentos que fazem mudar algumas percepções minhas. Sabe ficar grata e feliz com um simples mimo, não é ciumenta, não implica com o chopinho ou minha pelada de quarta-feira, e muito menos, me liga ou monitora o tempo todo. É organizada com dinheiro, não gasta demais, e mesmo assim, consegue se vestir bem, é classuda, e, além de tudo, é uma dama na sociedade e uma puta na cama, daquelas que não tem frescuras com sexo, pois não preciso mandar ofício carimbado em duas vias pra fazermos amor. Enfim...

Ele suspirou e baixou os olhos, como em um semblante vazio.

- E depois de todo este discurso sobre sua namorada, Cássio, por que então esta feição de tristeza?
- É que...Bom, ela não tem a bunda grande.

Breve silêncio.

- É, aí complica...

***

Mais uma repostagem já que, provavelmente, muitos não devem tê-la lido anteriormente. Antes o nome desse continho safado era Machista e Exigente. Ou Vice-Versa. Mas creio que o título de hoje caiu como uma luva.
Bom, estarei em férias a partir de amanhã, ou seja, fim das repostagens. Em fase de produção de textos.
Ah, e antes que me esqueça, não, eu nunca assisti a este filme que postei a foto. Só usei ilustrativamente. Mas a julgar pelo título e capa pastelões, não recomendo.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

MURPHY CUERVO

Júlia tem vinte anos e uma vida corrida. Trabalha pela manhã, faz estágio à tarde e cursa letras no turno da noite. Como se isso tudo não bastasse, ainda tem fôlego para ir à academia de segunda à quarta e nas quintas e sextas-feiras, beber e se divertir com os amigos em algum dancing bar ou boate badalada.

Júlia se empenhava e dava o máximo de si em todos os turnos. Embora sua dedicação se refletisse mais nos turnos da noite, com as tequilas – que ela ama -, margueritas e drinques como o preferido sex on the beach. Não que isso atrapalhasse sua concentração nas demais atividades. Não, Júlia também não era uma bonitinha burrinha. Se interessava por todos os assuntos, lia os principais jornais, tirava as melhores notas na faculdade, tinha os chefes da multinacional na mão, caminhava rumo a sua contratação na editora que estagiava e, falava muita, muita besteira, qualidade vital para não se tornar uma pessoa chata. Se bem que, mesmo que ela o quisesse ser, não conseguiria. Júlia é uma loira de um metro e setenta e sete, olhos cor-de-folha-seca, voz suave e corpo atlético. Como se isso tudo não bastasse, fala e se veste bem, é solteira, mora sozinha, é inteligente financeiramente e ainda assim, conservou a humildade. E pessoas com essas qualidades, impossivelmente são chatas.

O problema é que mesmo tendo uma baita disposição, quando se faz muitas coisas ao mesmo tempo, um dia algo desanda. E, digamos que Júlia exagerou um pouco na tequila numa bela quinta-feira. Chegou da farra às oito da manhã e uma hora depois, estava na empresa, também uma hora atrasada para uma importantíssima apresentação com tailandeses de outra multinacional.

Ao entrar na sala de reunião,
ainda bêbada e completamente sem noção, fez piadinhas com um dos executivos. Subiu de saia e salto na mesa de reunião e em gargalhadas apontou para o senhor de calvície reluzente e trancinha exclamando que nunca havia visto "um vovô que lutasse boxe tailandês!". Tanta foi a risada, que acabou vomitando, também pela ressaca da bebedeira, em cima de outro executiva do grupo. O episódio fez com que os tailandeses não assinassem um bom contrato. Não preciso nem contar com detalhes o desfecho da história. Demitida justamente, mas não por justa causa, por pura clemência dos patrões.

Chegando ao estágio, encontrou novamente com as consequências das sete doses e meia de tequila. O supervisor de estágio a demitiu também. Motivo: Júlia, na noite anterior, por volta da quinta dose, teria ligado para o supervisor boa pinta e confessado seus desejos mais secretos. Seria perfeito - já que rolava um flerte entre os dois - se quem atendesse não fosse a esposa do supervisor.

Sem contar com a dor-de-cabeça infernal que o José - Jose Cuervo -, causara a ela, seu dia estava péssimo e sua vida indo para o buraco. A essa hora até sua autoestima, completamente inabalável, começava a sentir algum tremor. E sísmico. Após caminhar à toa pelo parque o resto da tarde, tentando se lembrar ou compreender algo da noite passada – Qual é mesmo o nome do carinha que dormi? -, Júlia foi para a faculdade. Assim que chegou, se deparou com o boato de uma prova surpresa de literatura antiga e que a megera mal amada, como costumava chamar a professora, havia enviado aviso naquele dia por e-mail, que por acaso ela não teve como acessar por conta dos dois últimos parágrafos. Júlia rasgou uma pequena folha do caderno e transcreveu tudo para lá. A professora se atrasou por mais de meia-hora e enquanto isso, Júlia ficou memorizando a pequena cola.

Quando a "megera mal amada" entregou as provas, Júlia percebeu que de tanto memorizar a colinha, não precisou nem usá-la. Era o primeiro sorriso no dia. Parecia que aquilo era algum bom sinal. Júlia terminou a prova e quando levantou para deixar seu teste na mesa central da sala, a colinha - objeto não-consumado – caiu no chão no exato momento que a professora que, também não ia com a cara de Júlia, passava. A professora olhou, tomou sua aprova aplicando-lhe um redondo zero. Júlia não falou nada, mesmo porque ninguém acreditaria que ela não usou a cola que estava embaixo da prova. A professora começou com um discurso de ética, e Júlia, que sempre ficava um pouco agressiva nos dias seguintes das bebedeiras, cuspiu na cara do seu desafeto. Foi a única vez que Júlia gargalhou no dia. E também seu último dia de aula, porque não se sabe como, a professora conseguiu junto à coordenação do curso e com o apoio de um abaixo-assinado das barangas, burras e invejosas da sala, que ela fosse jubilada.

Sentada num banquinho, no pátio da faculdade, Júlia chorava pensando o que aconteceu com seu dia. E junto com seu choro, fluiu também sua menstruação e óbvio, haviam acabado os absorventes que ela carregava consigo em sua nécessaire. Pronto. Não faltava mais nada.

Naquele mesmo dia, após o episódio sangrento, Júlia ligou para Valéria para desabafar. Encontrou a amiga, que escutou preciosamente cada lamúria do seu dia. Parou de chorar. Ergueu a cabeça, estufou o peito e pediu ao garçom uma tequila.

***

Após mais um porre, Júlia estava decidida do que faria. Sem emprego, estágio e faculdade, pensou em ser jogadora de futebol, uma vez que hoje em dia não precisa saber muita coisa para isso. Mas futebol feminino ainda não remunera bem e desistiu ao lembrar que nenhum jornalista a entenderia nas entrevistas, pois falava o português correto. Então lhe ocorreu que para dar a volta por cima, usaria sua beleza.

Júlia investiu na carreira de modelo. Pegou um bom dinheiro que havia guardado, fez um belo book e foi de agência em agência apresentá-lo. Na primeira, a moça foi descoberta como o novo talento das passarelas, ali mesmo, na sala da dona da agência. Viajou para Milão, Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio. Ficou famosa, ganhou dinheiro e nunca mais precisou estudar.

Sempre que Júlia ligava para amigas próximas, como Valéria, confessava que a bebida acabou com sua vida. E para os repórteres que perguntavam quem tinha sido seu caça-talento, ela afirmava entediada: foi José, foi José...

***

Júlia sempre se dedicava de corpo e alma em tudo que se metia. Mas nunca quis emagrecer para ter o padrão de todas as outras modelos e, por isso, era uma modelo low-profile. Ela gostava do seu jeito curvilíneo de noventa e um centímetros de busto, noventa e seis de quadril e cinquenta e oito de coxa. Era parte da sua autoestima.

De repente, entrou em depressão por não ter mais tempo para estudar. Parou de comer, perdeu sua forma curvilínea e adquiriu anorexia atípica. Foi internada em caso grave, quase morreu e agora, que está se recuperando para não ser apenas mais uma pele e osso, nas palavras dela, as maiores grifes a disputam e já houve colunista dizendo que assim, esbelta, a Gisele Bündchen que se cuide.

***

Gente, repostagem revisada, mas não revistada. Fiquei com preguiça. Portanto, perdoem alguns trechos frouxos ou surreais do enredo. Foi um dos meus primeiros contos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

FALSA ESPONTANEIDADE

Sofia andava de semblante mudo para lá e para cá dentro de casa, cuidando de afazeres domésticos. Varria, mudava coisas de lugar, espanava poucos móveis e catava roupas que seu marido, Fred, havia deixado jogado no chão. Este, sem notar muito a presença da mulher na sala, continuava a assistir a um jogo do campeonato chileno na TV a cabo, e só desgrudava os olhos da tela para pedir que Sofia se afastasse, pois não conseguia ver o jogo.

Estavam casados há pouco tempo, mas não tão pouco, e ele já deixara a rotina ocupar aquele espaço sagrado entre eles e que também acontece com outros tantos casais; aquele vão que deve ser preenchido apenas com carinho, compreensão e conquista. Ou trocando em miúdos, amor. E devido a isso, a moça estava reflexiva há alguns dias, pensando acerca da falta daquele romantismo de Fred que um dia a fez flutuar. E naquela toada, coisa boa não daria.

A despeito disso, Fred continuou lá, estatelado na poltrona, até perceber que sua mulher não estava mais no cômodo há algum tempo. Pior. Agora, no quarto, parecia estar em um choro sussurrado. Diminuiu o volume da televisão e conseguiu escutar uma lamúria de Sofia conversando consigo, algo sobre o último encontro romântico de ambos: uma visita ao boteco do Mané, na esquina de casa, para comer um pescoço de peru. Sentiu-se mal e decidiu interpelá-la. E foi naquela quinta-feira à noite, após uma discussão inicial, que ela disse ao marido – sem bradar, mas em tom forte, audível e lúcido de voz, além de um quê de raiva nos olhos – que não saíra de casa para viver daquele jeito. “Frederico, ou você me trata como eu mereço, ou vou embora pra casa de papai e mamãe!”, disse ela, segundo Dona Marluce, sua vizinha de porta e que odeia um mexerico.

A ficha de Fred acabara de cair, e então, se ressentiu. Achando-se um verdadeiro troglodita, sem perdão de si mesmo, esperou o jogo de futebol acabar, jogou as latas de cerveja na lixeira, limpou o farelo de batatinhas que estava em cima do sofá e foi caminhar.

Quando retornou, sua mulher não tinha mais aquela raiva no olhar, estava indiferente, o que, em sua cabeça, pairava como indefinição: o que seria pior? A raiva feminina com suas atitudes imprevisíveis ou a indiferença feminina com seu desapego mortal? Parou de formular elucubrações e disse haver pensado bem. E implorou que ela não visse o que fazia agora pela perspectiva da falsa espontaneidade se a convidasse para ir jantarem em um restaurante à luz de velas no dia seguinte, mas sim, que o acontecido serviu para abri-lhe os olhos. Sofia aceitou, com ressalvas (porque senão fosse dessa forma, não seria uma mulher). E tamanha era a tristeza do amor cômodo doado por Fred e que abatia seu romântico coração, que o convite não só evitou uma greve, como também fez com que ela lhe desse a melhor noite sexual dos últimos tempos.

Dia seguinte, conforme combinaram, Fred foi buscá-la no serviço. Ela se entusiasmou, pois era do feitio dele pedir que ela viesse para casa só para ele não ter o trabalho de buscá-la. Mas naquele dia, não, ele estava lá, esperando-a. E abriu a porta do automóvel para Sofia, coisa que não fazia há um bom tempo e que a fez se sentir única e extremamente feliz.

Fred levou Sofia ao restaurante mais caro e comentado da cidade. Coisa fina. O restaurante fora inclusive, premiado por cinco vezes consecutivas por uma revista semanal como o melhor restaurante para se ir à dois na cidade. Havia reservado antecipadamente o melhor ambiente: um belo gazebo, com uma fonte, luz de velas e I’ve Got You Under My Skin, do Sinatra, tocada ao vivo por um pianista. Ela quase deixou uma discreta lágrima de canto de olho escapar, mas se conteve. Ele solicitou ao maître um excelente vinho branco, o qual brindaram a noite; como prato principal, a sugestão do chef: um esplêndido camarão na frigideira com pêra, acompanhado de arroz branco com carne desfiada de siri. E de sobremesa, um charlotte de coco de sabor tão suave e único, comparado apenas ao primeiro beijo de ambos.

Sofia estava encantada não só com o que Fred lhe proporcionava naquele momento, mas porque notara a dedicação dele, que tudo aquilo teve de ser pesquisado, ele deve ter conversado com amigos, conseguido boas dicas, enfim, batalhado pela ideia de fazê-la feliz. Logo o Fred, tão jeitoso no início do relacionamento, mas contraíra uma preguiça tão grande, a ponto de fazer dele um grosseirão em inúmeras vezes. E ver que ele não parecia a mesma pessoa de um dia atrás (arrotando cerveja e sujando o chão enquanto ela, cansada, se fazia de secretária do lar) alegrou ainda mais seu coração, tanto que se viu em raro instante com ar de veneração, olhando seu marido comer e sentiu-se apaixonar novamente. “Eu acho que meu Fredinho voltou pra valer!”, pensou ela.

Ambos papearam todo o tempo como nunca mais fizeram e trocaram juras de amor. Entretanto, a noite estava chegando ao fim e Fred pediu a conta. Infelizmente, tudo que é bom, é caro, ou é muito caro. O melhor restaurante, a entrada e o prato principal recomendados pelo chef, a sobremesa do dia, o melhor ambiente do estabelecimento, mais o couvert resultaram em um valor desses que dá até vontade de perguntar se é pegadinha: quase quatro dígitos. Uma noite singular, estupenda, mas lá estava, um jantar de quase quatro dígitos.

O garçom deixou a conta com o cavalheiro, como é de praxe, e se retirou. Ele olhou, abriu um largo sorriso para Sofia e então entregou para ela pagar. E após isso, Fred teve uma noite inesquecível.

***
Tem texto meu novinho no Guerra de Travesseiro. Lembrando que o negócio naquele blogue lá é apimentado! Quer um trechinho? Então lá vai:

- E quando contei que perdi a virgindade?
- Mas você perdeu sua virgindade com doze anos!
- Também, pudera, com a mãe que tenho...


sexta-feira, 12 de junho de 2009

PERGUNTAS DE CRIANÇA

O casal havia se separado há pouco tempo e naquele dia o pai levaria a filha ao colégio. Lá chegando, a garotinha de sete anos estranhou a decoração e indagou o jovem, inexperiente e ciumento pai para saber do que se tratava.

- Pai, porque a escola está cheia de corações?
- Porque é dia dos namorados, minha linda.
- Aaah... - Respondeu a menininha com semblante reticente.
- E eu tenho namorado?
E o pai assustado e com os olhos arregalados.
- É claro que não, minha princesa! Você ainda é pequena!
- Aaah...
- ...
- E o que um namorado faz no dia dos namorados?
- Bem... Ele, ele, ele, le-le-leva a namorada pra passear, e, e, e, bom, dá um presente, e...
- PRESENTE?
- É, um presente. - Disse ele ainda titubeando, mas aliviado.
- Aaah...
- ...
- Pai...
- Oi, filha?
- Eu quero um namorado...
- Glup!
- Um, não! Eu quero dois namorados!
- ...
- Paizinho, porque o senhor tá chorando?
- É, é, é que...
- Ah, deve ser por causa do presente... Faz assim: eu vou falar pra mamãe te dar um presente dela.
- Hã?
- É, pai! Mamãe que é esperta! Ela ganhou cinco, cinco presentes!

***

Em fase de produção de textos.
Na falta de inspiração para o Valentines Day, segue uma repostagem bonitinha e ordinária, além de bem ilustratativa da data.
Foto sem créditos porque não me lembro de onde a saquei à época.