quinta-feira, 19 de março de 2009

O SONHO DE SABRINA

Ele sempre aparecia bem vestido em um terno escuro, cabelo bem cortado, a barba feita e um buquê de rosas colombianas vermelhas nas mãos. Tocava a campainha e aguardava mirando o olho mágico da porta com a feição transbordando sua usual confiança traduzida em um leve, mas sagaz sorriso.

Sabrina sempre acordava no momento em que se preparava para abrir a porta. Faziam três meses de noites ansiosas e mal dormidas, desde que teve o tal pesadelo pela primeira vez, quando rompeu com Reginaldo, um ex-affaire que não a tratou como ela esperava ser tratada.

A ansiedade e insônia era a tradução de sede de vingança: ela simplesmente não conseguia esconder sua irritação por ver mais uma vez que não era real a sua chance de falar merecidas poucas e boas para ele, deixando-o com o semblante mudo. Não adiantava falarem que isso atraía energia negativa para ela, que era melhor se libertar daquele sentimento ruim, a moça continuava a entoar que o mundo dava voltas e que o infeliz do Reginaldo rodaria, rodaria, mas correria atrás dela.

Sabrina tinha certa razão em guarda tanto rancor de Reginaldo. Havia sido leviano com ela, prometera o mundo enquanto sua amante. Quando ele deu um basta no casamento, Sabrina pensou que seria a contemplada por ter aturado durante muito tempo as humilhações que uma amante sofre e mesmo assim continuar amando-o. Entretanto, Reginaldo se apaixonou por outra mulher e tentou, tolamente, fazer Sabrina novamente de amante, pensando que ela não descobriria sua vigarice.

Foi com uma mensagem no celular de Reginaldo que toda a verdade veio à tona. Sentiu-se patética e não gostava nem de pensar na hipótese do que faria se naquele momento tivesse um revólver. Foi só então que visualizou que Reginaldo não só machucara profundamente seu sentimento em relação a ele, mas a fez sentir-se de orgulho ferido; contava às amigas próximas, vacilante em choro, que o amor dele sempre foi de cama, diferente do seu, que era de alma.

Acontece que, sabe lá se foi macumba, feitiçaria ou se a ninfeta de dezenove anos a qual ele se apaixonou o largara, mas o que parecia mentira aos olhos de Sabrina é que lá estava Reginaldo, à porta de sua casa. E como que em uma visão quase mediúnica, trajava o mesmo terno escuro, estava de cabelo bem cortado, barba bem feita. Só não trazia um buquê, o que para a vingança dela ser completa era desnecessário.

Sabrina ao vê-lo pelo olho mágico quase desfaleceu. Por sorte não foi pega de supetão, já que estava quase de saída para a balada com suas amigas e sua maquiagem e penteado estavam impecáveis. Este último, em um corte chanel de nuca batida, desnudava sua tatuagem, a qual Reginaldo sempre ficou em êxtase ao ver. Ela abriu a porta e o momento se fez gélido. Ele fez menção de tocá-la, ao que Sabrina rejeitou o gesto apenas com a indiferença de um olhar irônico e enfadado, como se estivesse aturando os últimos minutos de uma aula de trigonometria.

- Olha só, eu queria, aliás, eu precisava falar contigo só por alguns minutos... – disse ele.

Ela, calada, meneou a cabeça em direção a ele e levantou as sobrancelhas, com um típico ar de “O quê que é?”, ao que Reginaldo continuou.

- Sabe, eu precisava muito te encontrar, precisava ver sua reação, blá, blá, blá...

Sabrina não escutava mais nada. Já conhecia aqueles velhos chavões dele, que vinham primeiro ordenadamente e depois aleatoriamente: reconhecimento de culpa; empatia estudada; e então, as boas lembranças dos dois juntos... Viu-se perdida no que ele devia estar falando, escutando alguns nacos daquela historinha retórica dele, a qual agora tinha certeza que funcionou com muita gente. Contudo, mesmo lembrando daquela conversinha, sua ira canalizada agora a fazia gargalhar por dentro, o mundo estava dando as voltas que sempre quis, com o cafajeste ali, se declamando, falando, suplicando, prestes a receber um não e uma mão.

Ele parou de falar e então houve um breve silêncio, aquele, como diz O Rappa, que precede o esporro. Encheu-se de ar para pôr para fora todo seu sentimento condemontecristano, ao que ele, antes, a interrompeu.

- Rá! Sacaneei! Achou que era verdade, né?! Eu sei que você tava louquinha pra que eu te desse esse gostinho! Mas se deu mal, não te quero não, ô!

Agora, na cama de estrado e jornal de uma penitenciária feminina, Sabrina, ressentida, olha a madrugada pelo quadrangular, após acordar rispidamente. Por ocasião da brincadeira que fez com ela, Reginaldo quase perdeu todos os movimentos do corpo, restando-lhe, por sorte, uma paraplegia. Em razão disso, ela tornou a ter pesadelos com ele. Sempre sonhava que ao invés do vaso de vidro que atirou em sua cabeça, pegava na cozinha uma faca de nove polegadas.

Foto extraída do blogue Discussões, Dissertações e Poesia.

quinta-feira, 12 de março de 2009

PÉ GRANDE

Achei que havia encontrado o homem da minha vida. Ele era um sonho. Sem problemas financeiros, sólida carreira como designer, nunca foi casado, sem filhos e nenhuma ex-namorada louca. Devido a traumas antigos, essas características foram imperativas pra eu achá-lo perfeito. Mas quando achei que isso era tudo que eu procurava em um homem, descobri nele outras facetas: o carinho, o romantismo e o dengo que me fazia querer colocá-lo no colo, sem falar da sensibilidade capaz de perceber detalhes, fosse uma bolsa nova que comprei ou apenas respeitar minha vontade de ficar calada. Tem duas semanas que nos conhecemos e até ontem à noite, num belíssimo jantar à luz de velas em seu apartamento, me perguntava qual o defeito dele.


Hoje acordei meio atordoada e pensando seriamente se o que aconteceu é motivo pra terminar com ele. Se ele é ruim de cama? Não sei. Quando o vi nu, não tive coragem de encarar tamanha imensidão do seu defeito.


***


Breve contribuição ao MCP, do Gustavão com o continho licencioso Nada Convencional. Penso o tempo todo em abobrinha e achei que deveria compartilhar com vocês.


Aviso: o teor do conto é proibido para menores. Mas muita gente grande também ficará estarrecida.