sexta-feira, 26 de junho de 2009

MURPHY CUERVO

Júlia tem vinte anos e uma vida corrida. Trabalha pela manhã, faz estágio à tarde e cursa letras no turno da noite. Como se isso tudo não bastasse, ainda tem fôlego para ir à academia de segunda à quarta e nas quintas e sextas-feiras, beber e se divertir com os amigos em algum dancing bar ou boate badalada.

Júlia se empenhava e dava o máximo de si em todos os turnos. Embora sua dedicação se refletisse mais nos turnos da noite, com as tequilas – que ela ama -, margueritas e drinques como o preferido sex on the beach. Não que isso atrapalhasse sua concentração nas demais atividades. Não, Júlia também não era uma bonitinha burrinha. Se interessava por todos os assuntos, lia os principais jornais, tirava as melhores notas na faculdade, tinha os chefes da multinacional na mão, caminhava rumo a sua contratação na editora que estagiava e, falava muita, muita besteira, qualidade vital para não se tornar uma pessoa chata. Se bem que, mesmo que ela o quisesse ser, não conseguiria. Júlia é uma loira de um metro e setenta e sete, olhos cor-de-folha-seca, voz suave e corpo atlético. Como se isso tudo não bastasse, fala e se veste bem, é solteira, mora sozinha, é inteligente financeiramente e ainda assim, conservou a humildade. E pessoas com essas qualidades, impossivelmente são chatas.

O problema é que mesmo tendo uma baita disposição, quando se faz muitas coisas ao mesmo tempo, um dia algo desanda. E, digamos que Júlia exagerou um pouco na tequila numa bela quinta-feira. Chegou da farra às oito da manhã e uma hora depois, estava na empresa, também uma hora atrasada para uma importantíssima apresentação com tailandeses de outra multinacional.

Ao entrar na sala de reunião,
ainda bêbada e completamente sem noção, fez piadinhas com um dos executivos. Subiu de saia e salto na mesa de reunião e em gargalhadas apontou para o senhor de calvície reluzente e trancinha exclamando que nunca havia visto "um vovô que lutasse boxe tailandês!". Tanta foi a risada, que acabou vomitando, também pela ressaca da bebedeira, em cima de outro executiva do grupo. O episódio fez com que os tailandeses não assinassem um bom contrato. Não preciso nem contar com detalhes o desfecho da história. Demitida justamente, mas não por justa causa, por pura clemência dos patrões.

Chegando ao estágio, encontrou novamente com as consequências das sete doses e meia de tequila. O supervisor de estágio a demitiu também. Motivo: Júlia, na noite anterior, por volta da quinta dose, teria ligado para o supervisor boa pinta e confessado seus desejos mais secretos. Seria perfeito - já que rolava um flerte entre os dois - se quem atendesse não fosse a esposa do supervisor.

Sem contar com a dor-de-cabeça infernal que o José - Jose Cuervo -, causara a ela, seu dia estava péssimo e sua vida indo para o buraco. A essa hora até sua autoestima, completamente inabalável, começava a sentir algum tremor. E sísmico. Após caminhar à toa pelo parque o resto da tarde, tentando se lembrar ou compreender algo da noite passada – Qual é mesmo o nome do carinha que dormi? -, Júlia foi para a faculdade. Assim que chegou, se deparou com o boato de uma prova surpresa de literatura antiga e que a megera mal amada, como costumava chamar a professora, havia enviado aviso naquele dia por e-mail, que por acaso ela não teve como acessar por conta dos dois últimos parágrafos. Júlia rasgou uma pequena folha do caderno e transcreveu tudo para lá. A professora se atrasou por mais de meia-hora e enquanto isso, Júlia ficou memorizando a pequena cola.

Quando a "megera mal amada" entregou as provas, Júlia percebeu que de tanto memorizar a colinha, não precisou nem usá-la. Era o primeiro sorriso no dia. Parecia que aquilo era algum bom sinal. Júlia terminou a prova e quando levantou para deixar seu teste na mesa central da sala, a colinha - objeto não-consumado – caiu no chão no exato momento que a professora que, também não ia com a cara de Júlia, passava. A professora olhou, tomou sua aprova aplicando-lhe um redondo zero. Júlia não falou nada, mesmo porque ninguém acreditaria que ela não usou a cola que estava embaixo da prova. A professora começou com um discurso de ética, e Júlia, que sempre ficava um pouco agressiva nos dias seguintes das bebedeiras, cuspiu na cara do seu desafeto. Foi a única vez que Júlia gargalhou no dia. E também seu último dia de aula, porque não se sabe como, a professora conseguiu junto à coordenação do curso e com o apoio de um abaixo-assinado das barangas, burras e invejosas da sala, que ela fosse jubilada.

Sentada num banquinho, no pátio da faculdade, Júlia chorava pensando o que aconteceu com seu dia. E junto com seu choro, fluiu também sua menstruação e óbvio, haviam acabado os absorventes que ela carregava consigo em sua nécessaire. Pronto. Não faltava mais nada.

Naquele mesmo dia, após o episódio sangrento, Júlia ligou para Valéria para desabafar. Encontrou a amiga, que escutou preciosamente cada lamúria do seu dia. Parou de chorar. Ergueu a cabeça, estufou o peito e pediu ao garçom uma tequila.

***

Após mais um porre, Júlia estava decidida do que faria. Sem emprego, estágio e faculdade, pensou em ser jogadora de futebol, uma vez que hoje em dia não precisa saber muita coisa para isso. Mas futebol feminino ainda não remunera bem e desistiu ao lembrar que nenhum jornalista a entenderia nas entrevistas, pois falava o português correto. Então lhe ocorreu que para dar a volta por cima, usaria sua beleza.

Júlia investiu na carreira de modelo. Pegou um bom dinheiro que havia guardado, fez um belo book e foi de agência em agência apresentá-lo. Na primeira, a moça foi descoberta como o novo talento das passarelas, ali mesmo, na sala da dona da agência. Viajou para Milão, Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio. Ficou famosa, ganhou dinheiro e nunca mais precisou estudar.

Sempre que Júlia ligava para amigas próximas, como Valéria, confessava que a bebida acabou com sua vida. E para os repórteres que perguntavam quem tinha sido seu caça-talento, ela afirmava entediada: foi José, foi José...

***

Júlia sempre se dedicava de corpo e alma em tudo que se metia. Mas nunca quis emagrecer para ter o padrão de todas as outras modelos e, por isso, era uma modelo low-profile. Ela gostava do seu jeito curvilíneo de noventa e um centímetros de busto, noventa e seis de quadril e cinquenta e oito de coxa. Era parte da sua autoestima.

De repente, entrou em depressão por não ter mais tempo para estudar. Parou de comer, perdeu sua forma curvilínea e adquiriu anorexia atípica. Foi internada em caso grave, quase morreu e agora, que está se recuperando para não ser apenas mais uma pele e osso, nas palavras dela, as maiores grifes a disputam e já houve colunista dizendo que assim, esbelta, a Gisele Bündchen que se cuide.

***

Gente, repostagem revisada, mas não revistada. Fiquei com preguiça. Portanto, perdoem alguns trechos frouxos ou surreais do enredo. Foi um dos meus primeiros contos.

13 comentários:

A Senhora disse...

A vomitada foi fatal! Eca! Mas eu estava torcendo por ela, quer dizer, pela Julia. :)

No fim, no fim... final feliz!

beijocas

Shirley disse...

O texto é tão bom que realmente é merecedor de um "bis"!

Conheci muitas "Júlias" andando por aí.

Hélder disse...

Reviravolta! Finais não convencionais é o que precisamos.
E pra completar, críticas sutis.

Muito bom!

Abç!

Thay Kleinsorgen disse...

É mesmo incrível a capacidade que as coisas têm de dar errado por um simples errinho, uma coisa banal. Eu não sei se é assim com todo mundo, ou se é fruto do meu pessimismo de escorpião. Se a segunda opção for a correta, essa menina devia compartilhar o mesmo signo que eu. (:

Vim aqui responder ao seu comentário no meu blogue. Talvez você nem imagine, mas ele me deixou muito feliz.
E, embora eu possa ter uma escrita madura, tô no auge dos meus dezoito anos. Mas de qualquer maneira, obrigada pelos elogios.

Beijos

PreDatado disse...

Só não fiquei entendendo como é que jornalista de moda entendia quem sabia falar assim. É que modelo quando abre a boca a gente nem sabe mais se está escutando jogador de futebol.

Fernando R. Silva disse...

Bruxinha: eu sempre achei que o pior do texto era ela ter menstruado sem nenhum absorvente por perto.

Shirley: pois é, as Júlias querem dominar o mundo.

Hélder: de qual crítica gostou mais, meu querido?

Thay: linda, acho que nem é assim com todo mundo, e nem tem muito a ver com signo. Bastava ela parar na primeira dose de tequila. ;)
E que bom que ficaste feliz. O elogio foi sincero, ok?

Vitor: sabe que tu tens razão? Droga! Queria ter lembrado disso quando escrevi o conto. :D

maria disse...

"Bruxinha: eu sempre achei que o pior do texto era ela ter menstruado sem nenhum absorvente por perto." - prova incontestável de que você realmente é homem, hehehe. Isso só é problema no início, quando é. Com a idade dela a gente já tira de letra!

eLi disse...

Um texto mesmo de reviravoltas!

Júlia se achou a mestre em língua portuguesa.
Tudo bem que jornalismo esportivo tem lá seus estigmas, mas naquela época o diploma ainda significava algo!
Deixa eu topar com essa modelo, para ela ver que entrevista que farei com ela...

Abração!

Fernando R. Silva disse...

Maria: tá vendo? Minha percepção do universo feminino não é tão aguda quanto pensei. Hehehe.

Eli: ai, mais uma gafe cometida por este autor aqui. Eu sabia que se tivesse um jornalista por aqui, também me daria mal. ;)
Mas Eli, se quiser irritar Júlia ou tirar satisfações, basta fazer o que fez: chamá-la de modelo. Você verá do que ela é capaz quando a chamam de burrinha. :)

Letícia disse...

Fernando essa Júlia é a cópia da mulher que seria o meu perfil completo se eu fosse homem...... heheheehe

Bju

Fernando R. Silva disse...

Letícia: não tenho dúvida que Júlia seria o seu perfil se homem. Ela já é o de toda a torcida do Vascão! ;)

Anônimo disse...

Primo, você sabe que a Júlia é sua personagem de que eu mais gosto. Politicamente incorreto? Mande às favas o politicamente correto! Liberdade de escrita requer uma certa transgressão. Adoro Murphy Cuervo!!!!

Andreza.

minicontosperversos disse...

Faltou dizer que o cara com que Julia dormiu aquela noite, com quem dividiu a garrafa do J.C., ela estava com um escritor errante, chegado nesses "atravessos" de noite; e que quando vê a top na capa da Caras, e diz aos amigos que com uma, numa oportunidade, havia consumado o ato, ninguém acredita