segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MURPHY CUERVO

Júlia tem vinte anos e uma vida corrida. Trabalha pela manhã, faz estágio à tarde e cursa letras no turno da noite. Como se isso tudo não bastasse, ainda tem fôlego para ir à academia de segunda à quarta e nas quintas e sextas-feiras, beber e se divertir com os amigos em algum dancing bar ou boate badalada.

Júlia se empenhava e dava o máximo de si em todos os turnos. Embora sua dedicação se refletisse mais nos turnos da noite, com as tequilas – que ela ama -, margueritas e drinques como o preferido sex on the beach. Não que isso atrapalhasse sua concentração nas demais atividades. Não, Júlia também não era uma bonitinha burrinha. Se interessava por todos os assuntos, lia os principais jornais, tirava as melhores notas na faculdade, tinha os chefes da multinacional na mão, caminhava rumo a sua contratação na editora que estagiava e, falava muita, muita besteira, qualidade vital para não se tornar uma pessoa chata. Se bem que, mesmo que ela quisesse ser, não conseguiria. Júlia é uma loira de um metro e setenta e sete, olhos cor-de-folha-seca, voz suave e corpo atlético. Como se isso tudo não bastasse, fala e se veste bem, é solteira, mora sozinha, estável financeiramente e ainda assim, é humilde. E pessoas com essas qualidades, impossivelmente são chatas.

O problema é que mesmo tendo uma baita disposição, quando se faz muitas coisas ao mesmo tempo, um dia elas desandam. E, digamos que Júlia exagerou um pouco na tequila numa bela quinta-feira. Chegou da farra às oito da manhã e uma hora depois, estava na empresa, uma hora atrasada para uma importantíssima apresentação com tailandeses de outra multinacional. A reunião aguardava apenas por ela, que ainda estava bêbada. Ao entrar na sala, completamente sem noção, a primeira coisa que fez foi sacanear um dos executivos por conta da trancinha que usava. Ela subiu de saia e salto na mesa de reunião e apontou para o senhor de trancinha – Nunca vi vovô lutando boxe tailandês! – Riu tanto que acabou vomitando, também pela ressaca da bebedeira, em cima de outra executiva do grupo. O episódio fez com que os tailandeses não assinassem um contrato de milhões. Não preciso nem contar com detalhes o desfecho da história. Demitida justamente, mas não por justa causa, por pura clemência dos patrões.

Chegando ao estágio, encontrou novamente com as conseqüências das oito doses e meia de tequila. O supervisor de estágio a demitiu também. Motivo: Júlia, na noite anterior, por volta da quinta dose, teria ligado para o supervisor boa pinta e confessado seus desejos mais secretos. Seria perfeito, já que rolava um flerte entre os dois, se quem atendesse não fosse a esposa do supervisor.

Sem contar com a dor-de-cabeça infernal que o José - Jose Cuervo -, causara a ela, seu dia estava péssimo e sua vida indo para o buraco. A essa hora até sua auto-estima, completamente inabalável, começava a sentir algum temor. E temor sísmico. Após caminhar à toa pelo parque o resto da tarde, tentando se lembrar ou compreender algo da noite passada – Qual é mesmo o nome do carinha que dormi? -, Júlia foi para a faculdade. Assim que chegou, se deparou com o boato de uma prova surpresa de literatura antiga e que a megera mal amada, como costumava chamar a professora, havia enviado aviso naquele dia por e-mail, que por acaso ela não teve como acessar por conta dos dois últimos parágrafos. Júlia rasgou uma pequena folha do caderno e transcreveu tudo para lá. A professora se atrasou por mais de meia-hora e enquanto isso, Júlia ficou memorizando a pequena cola.

Quando a "megera mal amada" entregou as provas, Júlia percebeu que sua cola continha a resposta de todas questões. E tem mais: de tanto memorizar a colinha, não precisou nem usá-la. Era o primeiro sorriso no dia. Parecia que aquilo era algum bom sinal. Júlia terminou a prova e quando levantou para deixar seu teste na mesa central da sala, a colinha - objeto não-consumado – caiu no chão no exato momento que a professora que, também não ia com a cara de Júlia, passava. A megera olhou e disse “Zero!”. Júlia não falou nada, mesmo porque ninguém acreditaria que ela não usou a cola que estava embaixo da prova. Principalmente se o teste fosse corrigido. A professora começou com um discurso de ética, e Júlia, que sempre ficava um pouco agressiva nos dias seguintes das bebedeiras e ainda com José na veia, cuspiu na cara da megera. Foi a única vez que Júlia gargalhou no dia. E também seu último dia de aula, porque não se sabe como, a megera conseguiu junto à coordenação do curso e com o apoio de um abaixo-assinado das barangas, burras e invejosas da sala, que ela fosse jubilada.

Sentada num banquinho, no pátio da faculdade, Júlia chorava pensando o que aconteceu com seu dia. E junto com seu choro, fluiu também sua menstruação e óbvio, haviam acabado os absorventes que ela carregava consigo em sua nécessaire. Pronto. Não faltava mais nada.

Naquele mesmo dia, após o episódio sangrento, Júlia ligou para Valéria, talvez para desabafar. Encontrou a amiga, que escutou preciosamente cada lamúria do seu dia. Parou de chorar. Ergueu a cabeça, estufou o peito e:

- Garçom, traz uma tequila!

***

Após mais um porre, Júlia estava decidida do que ia fazer. Sem emprego, estágio e faculdade, pensou em ser jogadora de futebol, já que hoje em dia não precisa saber muita coisa para isso. Mas futebol feminino ainda não dá muito dinheiro e desistiu ao lembrar que nenhum jornalista a entenderia nas entrevistas, pois falava o português correto. Então lhe ocorreu que para dar a volta por cima, a gata usaria um dos dons que Deus havia lhe dado: a beleza.

Júlia investiu numa carreira de modelo. Pegou um bom dinheiro que tinha guardado, fez um belo book e foi de agência em agência apresentá-lo. Na primeira, a moça foi descoberta como o novo talento das passarelas, ali mesmo, na sala da dona da agência. Viajou para Milão, Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio. Ficou famosa, ganhou dinheiro e nunca mais precisou estudar.

Sempre que Júlia ligava para amigas próximas, como Valéria, confessava que a bebida acabou com sua vida. E para os repórteres que perguntavam quem tinha sido seu caça-talento, ela afirmava entediada: foi José, foi José...

***

Júlia sempre se dedicava de corpo e alma em tudo que se metia. Mas nunca quis emagrecer para ter o padrão de todas as outras modelos e, por isso, era uma modelo low-profile. Ela gostava do seu jeito curvilíneo com, pasmem, noventa e um centímetros de busto, noventa e seis de quadril e cinqüenta e oito de coxa. Era parte da sua auto-estima.

De repente, entrou em depressão por não ter mais tempo para estudar. Parou de comer, perdeu sua forma gost, digo, curvilínea e adquiriu anorexia atípica. Já foi internada em caso grave, quase morreu e agora, que está se recuperando para não ser apenas mais uma pele e osso, nas palavras dela, as maiores grifes a disputam e já houve colunista dizendo que assim, esbelta, a Gisele Bündchen que se cuide.

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