Era quase meio-dia, quando abriu os olhos vendo tudo embaçado. Assim que sua visão se estabilizou, e sua mulher e filhos pararam de chorar, abraçando-o na cama da utêi, ele começou a recordar alguns nacos do acontecido na noite anterior. Um assaltante havia entrado em sua casa, e ele, sonolento atendendo ao pedido da mulher, foi averiguar o andar de baixo. Veloso se assustou com a presença do mau elemento na própria casa, e o ladrão, nada tarimbado, também no susto, disparou com o revólver calibre vinte e dois contra o dono da casa.
Assim que ele acordou e a notícia se espalhou aos amigos ávidos por informação, não tardou chegarem visitas. Veloso, com o semblante meio mudo, estava calado até então, e abriu a boca para resmungar: “Hoje temos que torcer pra sermos assaltados por profissionais! É o fim dos tempos!”. Suspirou e indagou: “E o bandido? Pegaram o bandido?” “Pegaram sim, Veloso. Parece que o cara foi encontrado hoje cedo num boteco, bêbado igual um gambá!”. Veloso ficou perplexo com a resposta e se absteve do resto da conversa, que logo preencheu o quarto com inúmeras fofocas do filho de belclano que virou ladrão e assaltou fulana, que o carregou no colo; de ciclano que quase morreu quando foi assaltado por um pivete; que o governo não faz nada a respeito e outras histórias corriqueiras sobre a violência na cidade. Ficou enfadado da conversa e ligou a têvê, mas só passava notícias do caso Isabela, a menina que foi jogada do sexto andar. “Isso já virou uma minissérie!”, ele pensou. Então, sentiu-se entediado e adormeceu.
De qualquer forma, isso tudo foi após a cirurgia para extirpar o projétil do corpo de Veloso, considerada como um desses milagres que fazem qualquer ateu crer em Deus. A bala do vinte e dois, como foi disparada a queima-roupa, não atingiu sua velocidade final e assim, não teve força para fazer um grande estrago, ficando alojada um palmo acima do coração, no ombro esquerdo de Veloso. Há de se agradecer também a mira do bandido, pois este, com certeza, nunca jogou dardos.
Quando Veloso acordou, teve a boa notícia do médico; dentro de dois dias teria alta, e a partir de agora ficaria só em observação.
Os dois dias passaram depressa e no finzinho da tarde do segundo dia dado pelo doutor, Veloso pôde voltar para casa. O tom da conversa no caminho era de felicidade por ele estar bem, além das súplicas de sua esposa, dizendo que o marido estar vivo era uma dádiva divina, que ele deveria aproveitar mais a vida, que não podia ser tão carrancudo et cetera et cetera et cetera. Em suma: queriam um Veloso mais bem humorado. Ele respondeu que ela tinha toda a razão e que tentaria mudar, algo muito, muito estranho, já que ele nunca concordava com as coisas, dificilmente dava o braço a torcer. Como não bastasse essa estranheza toda, ainda pediu ao filho que dirigia para passar no shopping. Disse a todos para aguardarem no carro, sob protestos deles, pois não queriam deixá-lo sozinho. Voltou após quarenta e três minutos com uma sacola. Foi questionado sobre o embrulho, entretanto, disse apenas que era besteira, que depois mostrava. O resto do percurso foi marcado pelo mesmo assunto, aproveitar a vida, ser melhor humorado et cetera. Todos até esqueceram da tal sacola.
À noite, jantaram em família, dando grande valor àquele momento. Refletiram sobre como a vida pode levar alguém querido de uma hora para a outra, que o pai de família ali sentado poderia não estar mais entre eles. E aí foi um rio de lágrimas, até Veloso, avesso ao choro, deixou escapar umas poucas e discretas gotículas de canto do olho.
Na hora de deitar, perguntou a esposa se poderia dormir sozinho no primeiro dia, para se acostumar com a ferida da bala, ao que ela atendeu prontamente. De manhã, bem cedo, por volta das oito e vinte, esposa e filhos tomavam o café-da-manhã, e repentinamente, ouviram um estrondo ecoar pela casa, semelhante a um tiro. E vinha do andar de cima. Todos subiram correndo em desespero.
Quando abriram a porta do quarto de hóspedes para ver, lá estava o corpo de Veloso todo sujo de um rubro indescritível. A cabeça pingava e havia uma gosma espalhada por toda ela, além do travesseiro. Ele estava deitado de bruços, a mão direita embaixo do travesseiro, e junto a ela, um revólver calibre trinta e oito. Suicídio não parecia ser, pois a arma não estava meio presa a mão. Talvez ficara traumatizado com o assalto, resolvera comprar uma arma e dormir com ela em baixo do travesseiro, e, devido a sua imperícia, poderia ter esquecido de travá-la, logo após carregá-la. A cena dava asco e se assemelhava àquela principal de Jogos Mortais, com um corpo caído entre os dois acorrentados. Sua filha e esposa berravam, o filho chorava menos que as outras duas, embora fosse o suficiente para molhar-lhe todo o rosto. Passou em segundos na sua cabeça que seu pai havia escapado de uma morte fatal por arma de fogo e agora poderia ter se matado sem querer por dormir com uma embaixo do travesseiro. Uma grandessíssima ironia.
Mesmo assim, o filho era o que tinha mais condições psicológicas no recinto. Foi ele quem se aproximou do pai – chorando e tremendo – e tocou lhe o corpo.
- TCHARAN!
O pai gritou abrindo o olho. A filha saiu correndo e barregando pelo corredor, a mãe desmaiou e a calça do filho jorrava. Veloso pulou da cama e continuou:
- Ué, gente, o que é isso? Vocês não queriam que eu tivesse bom humor? Então, é tudo mentirinha, ó! Primeiro de abril!