
Sofia andava de semblante mudo para lá e para cá dentro de casa, cuidando de afazeres domésticos. Varria, mudava coisas de lugar, espanava poucos móveis e catava roupas que seu marido, Fred, havia deixado jogado no chão. Este, sem notar muito a presença da mulher na sala, continuava a assistir a um jogo do campeonato chileno na TV à cabo, e só desgrudava os olhos da tela para pedir que Sofia se afastasse, pois não conseguia ver o jogo.
Estavam casados há pouco tempo, mas não tão pouco, e ele já deixara a rotina ocupar aquele espaço sagrado entre eles e que também acontece com outros tantos casais; aquele vão que deve ser preenchido apenas com carinho, compreensão e conquista. Ou trocando em miúdos, amor. E devido a isso, a moça estava reflexiva há alguns dias, pensando acerca da falta daquele romantismo de Fred que um dia a fez flutuar. E naquela toada, coisa boa não daria.
A despeito disso, Fred continuou lá, estatelado na poltrona, até perceber que sua mulher não estava mais no cômodo há algum tempo. Pior. Agora, no quarto, parecia estar em um choro sussurrado. Diminuiu o volume da televisão e conseguiu escutar uma lamúria de Sofia conversando consigo, algo sobre o último encontro romântico de ambos: uma visita ao boteco do Mané, na esquina de casa, para comer um pescoço de peru. Sentiu-se mal e decidiu interpelá-la. E foi naquela quinta-feira à noite, após uma discussão inicial, que ela disse ao marido – sem bradar, mas em tom forte, audível e lúcido de voz, além de um quê de raiva nos olhos – que não saíra de casa para viver daquele jeito. “Frederico, ou você me trata como eu mereço, ou vou embora pra casa de papai e mamãe!”, disse ela, segundo Dona Marluce, sua vizinha de porta e que odeia um mexerico.
A ficha de Fred acabara de cair, e então, se ressentiu. Achando-se um verdadeiro troglodita, sem perdão de si mesmo, esperou o jogo de futebol acabar, jogou as latas de cerveja na lixeira, limpou o farelo de batatinhas que estava em cima do sofá e foi caminhar.
Quando retornou, sua mulher não tinha mais aquela raiva no olhar, estava indiferente, o que, em sua cabeça, pairava como indefinição: o que seria pior? A raiva feminina com suas atitudes imprevisíveis ou a indiferença feminina com seu desapego mortal? Parou de formular elucubrações e disse haver pensado bem. E implorou que ela não visse o que fazia agora pela perspectiva da falsa espontaneidade se a convidasse para ir jantarem em um restaurante à luz de velas no dia seguinte, mas sim, que o acontecido serviu para abri-lhe os olhos. Sofia aceitou, com ressalvas (porque senão fosse dessa forma, não seria uma mulher). E tamanha era a tristeza do amor cômodo doado por Fred e que abatia seu romântico coração, que o convite não só evitou uma greve, como também fez com que ela lhe desse a melhor noite sexual dos últimos tempos.
Dia seguinte, conforme combinaram, Fred foi buscá-la no serviço. Ela se entusiasmou, pois era do feitio dele pedir que ela viesse para casa só para ele não ter o trabalho de buscá-la. Mas naquele dia, não, ele estava lá, esperando-a. E abriu a porta do automóvel para Sofia, coisa que não fazia há um bom tempo e que a fez se sentir única e extremamente feliz.
Fred levou Sofia ao restaurante mais caro e comentado da cidade. Coisa fina. O restaurante fora inclusive, premiado por cinco vezes consecutivas por uma revista semanal como o melhor restaurante para se ir à dois na cidade. Havia reservado antecipadamente o melhor ambiente: um belo gazebo, com uma fonte, luz de velas e
I’ve Got You Under My Skin, do Sinatra, tocada ao vivo por um pianista. Ela quase deixou uma discreta lágrima de canto de olho escapar, mas se conteve. Ele solicitou ao maître um excelente vinho branco, o qual brindaram a noite; como prato principal, a sugestão do
chef: um esplêndido camarão na frigideira com pêra, acompanhado de arroz branco com carne desfiada de siri. E de sobremesa, um charlotte de coco de sabor tão suave e único, comparado apenas ao primeiro beijo de ambos.
Sofia estava encantada não só com o que Fred lhe proporcionava naquele momento, mas porque notara a dedicação dele, que tudo aquilo teve de ser pesquisado, ele deve ter conversado com amigos, conseguido boas dicas, enfim, batalhado pela ideia de fazê-la feliz. Logo o Fred, tão jeitoso no início do relacionamento, mas contraíra uma preguiça tão grande, a ponto de fazer dele um grosseirão em inúmeras vezes. E ver que ele não parecia a mesma pessoa de um dia atrás (arrotando cerveja e sujando o chão enquanto ela, cansada, se fazia de secretária do lar) alegrou ainda mais seu coração, tanto que se viu em raro instante com ar de veneração, olhando seu marido comer e sentiu-se apaixonar novamente. “Eu acho que meu Fredinho voltou pra valer!”, pensou ela.
Ambos papearam todo o tempo como nunca mais fizeram e trocaram juras de amor. Entretanto, a noite estava chegando ao fim e Fred pediu a conta. Infelizmente, tudo que é bom, é caro, ou é muito caro. O melhor restaurante, a entrada e o prato principal recomendados pelo
chef, a sobremesa do dia, o melhor ambiente do estabelecimento, mais o couvert resultaram em um valor desses que dá até vontade de perguntar se é pegadinha: quase quatro dígitos. Uma noite singular, estupenda, mas lá estava, um jantar de quase quatro dígitos.
O garçom deixou a conta com o cavalheiro, como é de praxe, e se retirou. Ele olhou, abriu um largo sorriso para Sofia e então entregou para ela pagar. E após isso, Fred teve uma noite inesquecível.
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Tem texto meu novinho no Guerra de Travesseiro. Lembrando que o negócio naquele blogue lá é apimentado! Quer um trechinho? Então lá vai:
- E quando contei que perdi a virgindade?
- Mas você perdeu sua virgindade com doze anos!
- Também, pudera, com a mãe que tenho...